DEZEMBRO 2021 A JUNHO 2022

Convidámos o professor Rui Sousa para nos falar do seu projeto “Mafra e as Linhas de Torres”.

“Mafra e as Linhas de Torres” é um projeto da Escola Secundária José Saramago que começou a desenvolver-se em 2007, fruto do meu hobby de colecionador de figuras históricas napoleónicas e do interesse da Presidente do Conselho Diretivo de então, Margarida Branco, em participar com a escola nas comemorações dos 200 anos das invasões. Para mim foi juntar o útil ao agradável.

As figuras do género Action Man que apresentamos são representativas dos exércitos da Guerra Peninsular. São articuladas e permitem compor quadros ilustrativos do dia-a-dia de um acampamento militar aliado num cenário ao ar livre no espaço escolar. É importante mencionar que a coleção resulta da compra de figuras e peças comerciais e do trabalho manual de alunos, professores e artesãos, nomeadamente as fardas portuguesas, carroças, carretas, canhões, entre muitas outras peças. 

Juntamente com a professora de História Maria José Madaíl, que infelizmente já faleceu, apresentou-se o projeto à escola com objetivos bem definidos:

  Reforçar a ligação Escola/Comunidade;

  Incentivar a participação cívica e política dos jovens e consciencializá-los para o património histórico nacional e regional;
 
  Proporcionar atividades que desenvolvam uma consciência cultural;

  Promover a formação integral dos alunos; 

  Promover a interdisciplinaridade; 

  Integrar a comunidade escolar nas iniciativas promovidas no âmbito das Invasões Francesas;

  Disponibilizar o acervo do projeto para exposições em instituições culturais, escolares ou militares que o solicitem.

O nosso papel centrou-se na divulgação, promoção e desenvolvimento de uma visão inovadora e aliciante das Invasões Francesas com figuras em que se procura respeitar o rigor histórico do quotidiano dos homens e mulheres, militares e civis, envolvidos na construção e defesa das linhas, bem como as impressões deixadas em diários, cartas e memórias dos intervenientes. Ao mesmo tempo, contextualizando Mafra na defesa do território nacional durante o período em apreço, promovemos entre os alunos o conhecimento da História, da Etnografia, da arquitetura militar, da uniformologia e da arte da guerra do período, consciencializando-os também para a proteção do património cultural, histórico e arquitetónico. 

Em 2008 foi assinado um Protocolo de Colaboração para as “Comemorações do Bicentenário da Guerra Peninsular” que envolvia, para além do Município de Mafra, a EPI, o CMEFD, o Centro de Tropas Comandos, o Palácio Nacional de Mafra e o Clube Militar dos Oficiais de Mafra. Entretanto, nestes 14 anos de projeto foram realizadas muitas exposições e palestras por todo o país inspiradas no tema “O quotidiano nas Invasões Francesas”, solicitações que tantas vezes implicam abdicar do tempo de descanso e de fins de semana.

Por forma a contextualizar como se viveu durante as invasões, foi necessário investigar quem eram os soldados que formavam o exército aliado e como se deslocavam e abasteciam os exércitos em campanha. No exército britânico havia duas opções de alistamento em 1808 - sete anos ou, por algum pré extra, toda a vida. A hipótese de ter um emprego e rações de bebida eram suficientes para assinar por toda a vida. Já os soldados franceses eram obrigados a alistar-se. 

Napoleão nunca compreendeu a revolta dos países “libertados” porque “vivia da terra”, deixando aos seus exércitos a responsabilidade de se alimentarem pelos seus próprios meios. Em Portugal rapidamente se generalizou a requisição forçada e violenta de alimentos e todos os soldados franceses passaram à pilhagem generalizada. Lembro, também, que Portugal nunca se equiparou às ricas terras férteis do centro europeu que sustentaram as primeiras campanhas vitoriosas de Napoleão. Portugal mal podia sustentar a sua própria população de cerca de três milhões de almas. 

Pelo seu lado, Wellington precisava do apoio do país e encarava a pilhagem e o roubo como crimes puníveis com a pena de morte. Qualquer soldado sob o seu comando sabia que devia pagar todos os produtos ou serviços de que necessitasse. Desta interação forçada ficaram algumas expressões na língua portuguesa em que as novas gerações ficam a ver navios e acaba tudo por ir para o maneta. 

A investigação acerca da componente demográfica e ocupacional da população portuguesa do século XVIII acabou por se tornar uma palestra divertida sobre os diferentes ofícios/profissões do passado que se perderam no tempo. De facto, quem sabe o que fazia um surrador, um pentieiro ou uma fressureira? Graças ao trabalho do filólogo e pedagogo Adolfo Coelho, no domínio da etnografia e das profissões populares em Portugal, e com o auxílio de um bom dicionário, podemos reviver o passado. Um surrador é aquele que surra/bate peles ou couro, um pentieiro é aquele que faz ou vende pentes e uma fressureira é aquela que vende fressura, ou seja, as vísceras comestíveis da rês. 

Este projeto deu-me a conhecer muitos conteúdos de outras áreas disciplinares que um professor de inglês não teria, normalmente, motivação para explorar. Da parábola e do atrito dos disparos de canhão da Física, à pólvora na aula de Química, passando pelas muitas expressões coloquiais em português para inglês ver, visitando a Matemática e a análise estatística do censo de 1801 ou a inovação do serviço ambulatório em Biologia, tudo é transversal às áreas curriculares.

Ser professor implica atualizar, inovar, desenvolver, para que possamos estimular nos nossos alunos processos facilitadores do desenvolvimento pessoal e aprendizagem autónoma. Contudo, a constante pressão de cumprir programas longos inibiu, desde sempre, muitos professores de investir na diversidade dos processos de aprendizagem. Por outro lado, os constrangimentos burocráticos, a falta de tempo e a idade dos docentes não facilitam o processo criativo e a quase inexistente formação de novos docentes não augura nada de bom. 

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