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No coração de Sobral de Monte Agraço, a Igreja de Nossa Senhora da Vida guarda uma história que vai além da fé e do património artístico: a de um pequeno cofre que, depois das Invasões Francesas, ajudou a vila a reerguer-se.
Mandada construir no século XVIII por Joaquim Inácio da Cruz Sobral, primeiro morgado de Sobral, a igreja substituiu a antiga ermida dedicada à mesma invocação. Inspirada na Igreja de Santa Isabel, em Lisboa, teve as obras dirigidas por Reinaldo Manuel dos Santos, arquiteto ligado à reconstrução da capital após o terramoto de 1755. No interior, entre os cinco altares, o coro de três arcos e a decoração da nave, encontram-se as relíquias de Santa Aurélia, colocadas no altar evocativo da Crucificação de Cristo.
A devoção à santa não apenas reunia esmolas como dava origem a promessas e leilões, cujas receitas eram guardadas no cofre que trazia o seu nome. O dinheiro não se destinava apenas ao culto: servia para acudir a pessoas carenciadas, trazer médicos à vila e apoiar famílias em dificuldade, numa época em que não existiam estruturas públicas de assistência.
Em outubro de 1810, após os combates em Sobral e junto às Linhas de Torres, as tropas francesas ocuparam a vila durante cerca de um mês. Saques, incêndios e destruição, a que se juntaram os efeitos da política de terra queimada, deixaram casas, campos, colheitas, azenhas e moinhos devastados. A memória desse tempo ficou até na toponímia, como atesta o nome da rua das Casas Queimadas.
O cofre ganhou então nova e importante função. As esmolas passaram a financiar também empréstimos a famílias e lavradores, permitindo reparar habitações, comprar animais e retomar o cultivo dos campos. Um objeto ligado à devoção religiosa tornou-se, assim, um recurso económico da comunidade.
O cofre de Santa Aurélia conta uma parte menos visível da guerra: não a dos exércitos e fortificações, mas a de uma vila que encontrou nos seus próprios recursos uma forma de começar de novo.