JULHO 2026 A DEZEMBRO 2026

O que é um museu da música?

É essa a pergunta que orienta o novo percurso expositivo instalado no Real Edifício de Mafra

Seria fácil responder que é um lugar onde se expõem instrumentos antigos e objetos raros. Durante décadas, foi precisamente essa a lógica seguida por muitos museus dedicados à música: reunir violinos com violinos, flautas com flautas, teclados com teclados, organizando-os segundo a forma como produzem o som. Uma classificação útil para musicólogos, mas que pouco diz ao visitante sobre aquilo que verdadeiramente importa: porque fazemos música? É precisamente essa pergunta que orienta o novo percurso expositivo instalado no Real Edifício de Mafra.

O compositor e musicólogo Edward Ayres de Abreu, diretor do Museu Nacional da Música, guiou-nos pelo surpreendente percurso expositivo

A mudança do Museu Nacional da Música para Mafra não representou apenas uma alteração de morada, mas também a oportunidade de reinventar o próprio museu.

Durante mais de trinta anos, a coleção permaneceu instalada provisoriamente no Alto dos Moinhos. Antes disso sucederam-se projetos que nunca chegaram a concretizar-se, com destinos apontados para Évora, Porto ou diferentes locais de Lisboa. A transferência para Mafra permitiu finalmente resolver uma longa situação de precariedade, ao mesmo tempo que devolveu vida a espaços do Real Edifício que há muito aguardavam uma nova utilização.

Mas restaurar o edifício era apenas metade do desafio. Foi igualmente necessário restaurar a própria coleção. Cerca de quinhentas peças passaram por intervenções de conservação antes de serem expostas. Algumas revelaram surpresas inesperadas. Um piano durante décadas considerado preto revelou, depois da remoção das sucessivas camadas envelhecidas de goma-laca, uma inesperada tonalidade verde. Pequenas descobertas como esta lembram que um museu não conserva apenas objetos; conserva também histórias que permanecem escondidas até que alguém as volte a revelar.

Essa ideia de descoberta acompanha todo o percurso. Em vez de conduzir o visitante através de uma história cronológica dos instrumentos musicais, o museu prefere organizar-se em torno de grandes perguntas. A primeira delas é inevitável: o que é, afinal, a música?

Numa das vitrinas encontram-se objetos que dificilmente esperaríamos encontrar num museu da música: um apito de árbitro, uma buzina de automóvel, um copo de cristal, uma campainha, um serrote, uma trompa de caça. Nenhum deles parece pertencer naturalmente a este universo. No entanto, todos podem produzir som e todos podem, em determinadas circunstâncias, tornar-se instrumentos musicais.

A provocação é deliberada. A música não reside necessariamente no objeto, mas na relação que estabelecemos com ele. O visitante é convidado a abandonar a ideia de que existe uma fronteira rígida entre som e música. O que transforma um fenómeno sonoro em música pode depender tanto da escuta como daquilo que produz o som.

É uma mudança subtil de perspetiva, mas decisiva. O protagonista deixa de ser o instrumento para passar a ser o ato de ouvir.

Essa ideia encontra a sua expressão máxima numa das salas mais inesperadas do museu. É, paradoxalmente, uma sala onde quase não existem instrumentos. Em seu lugar encontramos um sistema imersivo de som composto por vinte e quatro colunas, plataformas vibratórias, projeções e uma instalação interativa que permite literalmente manipular o espaço sonoro. O visitante deixa de contemplar objetos para experimentar o próprio fenómeno da audição.

Também aqui o museu evita respostas fechadas. Algumas pessoas atravessam a sala em poucos minutos. Outras permanecem sentadas, simplesmente a ouvir. O espaço foi pensado precisamente para permitir essas diferentes formas de apropriação.

A partir desse momento, o percurso deixa de perguntar o que é a música para passar a perguntar porque fazemos música.

As respostas distribuem-se por sucessivos núcleos temáticos. Há uma sala dedicada ao saber popular, onde instrumentos oriundos da Madeira, da Croácia, da Catalunha, da Áustria, de Moçambique ou da China convivem lado a lado. A proximidade não resulta da geografia nem da época em que foram construídos. Resulta da função que desempenham. Todos participam em festas, celebrações, romarias ou encontros comunitários. O que os aproxima não é a sua origem, mas o modo como acompanham momentos fundamentais da vida coletiva.

Noutra sala, dedicada ao transcendente, a música surge ligada às crenças, aos rituais e às narrativas míticas. Instrumentos associados a lendas convivem com objetos utilizados em práticas religiosas de diferentes tradições. Um antigo piano de mesa conserva, escondida sob o tampo harmónico, uma pequena gravura devocional colocada pelo próprio construtor — um gesto invisível para quem toca o instrumento, mas revelador da íntima relação entre o trabalho artesanal e a dimensão espiritual que tantas vezes o acompanhava.

Talvez um dos episódios mais curiosos do percurso seja dedicado ao célebre falsário florentino Leopoldo Franciolini.

Em vez de esconder o engano, o museu transforma-o numa oportunidade para explicar como se constrói a autenticidade. Franciolini fabricava instrumentos apócrifos recorrendo frequentemente a elementos verdadeiramente antigos. Num dos casos expostos, uma recente intervenção revelou que algumas peças utilizadas pelo falsário eram, afinal, ainda mais antigas do que ele próprio imaginara. A fraude acaba, assim, por conter uma inesperada parcela de verdade.

Poucos museus teriam resistido à tentação de apresentar esta história apenas como curiosidade. Aqui, ela serve para mostrar como os objetos transportam biografias complexas, feitas de sucessivas camadas de utilização, transformação e interpretação.

Ao longo do percurso regressa constantemente uma mesma ideia. Os instrumentos não são apresentados como obras-primas isoladas, mas antes são apresentados como testemunhos de atividades humanas: celebrar, aprender, rezar, exercer poder, construir identidade, fazer comunidade. Cada sala procura mostrar uma dessas dimensões, recusando separar objetos que pertencem a culturas ou épocas diferentes sempre que desempenham papéis semelhantes na vida das pessoas.

Também por isso a tecnologia não surge como simples apoio à visita. Um sistema de auscultadores acompanha o visitante por uma das salas, ativando automaticamente os sons dos instrumentos que tem diante de si. De repente, as vitrinas deixam de ser silenciosas. O museu recupera aquilo que normalmente se perde quando um instrumento passa do palco para a exposição: a sua voz.

No final da visita percebe-se que ali os verdadeiros protagonistas não foram nunca os objetos, mas as pessoas. As pessoas que construíram instrumentos, as que os tocaram, as que os colecionaram, as que os restauraram — até mesmo as que os falsificaram.

E, finalmente, aquelas que hoje entram no museu e são convidadas não apenas a observar uma coleção, mas a participar nela — seja sugerindo músicas para uma playlist coletiva, seja descobrindo, ao seu próprio ritmo, novas formas de ouvir.

O Museu Nacional da Música não pede apenas que olhemos para os instrumentos: convida-nos, antes de tudo, a escutar as perguntas que eles continuam a fazer.

Contactos
Terreiro D. João V
2640-492 Mafra
(+351) 913 491 610
geral@museunacionaldamusica.pt
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