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Quando a Rota Histórica das Linhas de Torres foi criada, reunia apenas seis municípios a remar na mesma direção. Hoje, a Rota cresceu e o mapa é outro. O que tornou possível essa expansão — e o que mudou na colaboração entre municípios?
A expansão foi possível porque os municípios compreenderam que só através de uma visão conjunta conseguiriam valorizar uma história e património únicos cuja essência é intermunicipal, diria até nacional. Houve maturidade política e um compromisso contínuo com a cooperação da parte dos representantes dos municípios envolvidos. Mas para o sucesso saliento também o papel determinante da equipa técnica intermunicipal que, lado a lado com a direção, garantiu o rigor, capacidade de execução e uma dedicação ao território que ultrapassa o profissional. Somos todos incansáveis, empenhados e apaixonados pelo património. Este foi o espírito de cooperação e interajuda que tornou possível avançar em tantas frentes ao mesmo tempo. Hoje, a Rota é uma rede que aprendeu a pensar, a negociar e, acima de tudo, a trabalhar para o bem comum. A maior mudança foi essa: deixámos de trabalhar lado a lado e começámos a trabalhar verdadeiramente juntos. A consciência, entre os associados, de que fazem parte de um território que desempenhou um papel histórico de grande relevância para o país, mas também para a Europa, trouxe maior eficiência, planeamento integrado e capacidade de captar projetos estruturantes.
Após dez anos, deixa a presidência num momento em que a Rota está consolidada, é motor de desenvolvimento turístico e económico e assumiu-se como um modelo de boa governança. Qual é o maior desafio para garantir que esta energia continua a transformar o território?
O maior desafio é continuar a crescer com coerência estratégica. A Rota precisa de manter o rigor histórico, continuar a inovar e aprofundar a ligação às comunidades. É essencial consolidar a identidade construída e simultaneamente prepará-la para os novos paradigmas do turismo cultural e das audiências digitais, sempre continuando a ouvir as pessoas e os agentes que estão no terreno. É necessário assegurar financiamento, atrair novos públicos e consolidar a internacionalização. A verdadeira sustentabilidade depende da capacidade de pensar a longo prazo e isso só se alcança com um projeto vivido e não apenas administrado.
As Linhas de Torres são muito mais do que fortes e redutos: são uma paisagem moldada pela História, em que a memória da maior ofensiva militar que o país sofreu ainda faz parte da identidade dos locais e das suas gentes. Porquê olhar para as Linhas como território unificado?
Porque as Linhas foram concebidas como um sistema defensivo integrado e essa lógica só é compreensível quando se lê o território como um todo. Trabalhá-las de forma fragmentada seria contrariar a sua própria natureza. A abordagem territorial concertada permitiu estruturar produtos turísticos, reforçar a leitura paisagística e criar uma narrativa coerente que liga comunidades, espaços e memórias das Invasões Francesas. As Linhas não são peças soltas, quando mostramos que cada monte, vale, reduto ou cada campo de batalha faz parte de algo maior, a memória torna-se presente: são histórias da História e histórias transmitidas de geração em geração. Quando olhamos o território dessa forma, percebemos que estamos a cuidar de uma herança que continua a pulsar.
Ao longo dos últimos anos, assistimos a uma verdadeira metamorfose: estruturas militares abandonadas tornaram-se património cuidado, visitável e premiado e uma narrativa da Primeira e Terceira Invasão Francesa a Portugal que se estende por mais de 80 km. O que foi mais exigente no processo de reabilitação?
O principal desafio foi equilibrar a preservação e a salvaguarda do património com a necessidade de criar condições de visitação. Foi necessário harmonizar metodologias, criar referências para boas práticas e garantir rigor científico num diálogo permanente entre a academia, o exército, as equipas técnicas e as autarquias. Conciliar diferentes escalas — local, regional e nacional — implicou construir uma visão que integrasse todos. Havia estruturas muito degradadas, paisagens sensíveis, comunidades profundamente ligadas a estes espaços e isso fez-nos sentir, em vários momentos, o peso da responsabilidade — não sobre as pedras, mas sobre as histórias que elas guardam. Mas também houve momentos de enorme alegria, como ver moradores a revisitarem um forte que já nem julgavam recuperável ou cuja importância da sua missão desconheciam por completo.
Com a revista INVADE e o portal InvadeMAG, a comunicação ganhou um papel central. Como é que a comunicação tem ajudado a criar a identidade do território da Rota?
A comunicação permitiu aproximar o território das pessoas. A revista Invade e o portal InvadeMAG, por exemplo, tornam o património acessível, contemporâneo e emocionalmente significativo e têm sido capazes de envolver tanto especialistas como o público geral. O trabalho de “comunicar” contribuiu para reforçar a identidade coletiva, criar literacia patrimonial e tornar o património um recurso quotidiano para outras dimensões do território como sejam os eventos, a educação patrimonial ou as várias experiências turísticas possíveis. As redes sociais e o website da Rota, por sua vez, vêm criando “comunidade”, essencial para reforçar o sentimento de pertença e para posicionar a Rota num espectro mais amplo de públicos.
Como equilibrar tecnologia, rigor histórico e turismo?
Penso que esse equilíbrio resulta de uma regra clara: a tecnologia deve estar ao serviço da História, nunca o contrário. Cada ferramenta digital foi desenvolvida com validação científica e com objetivos pedagógicos definidos. São mediadoras na interpretação histórica e na experiência do visitante e quando assim é, o turismo torna-se mais qualificado e informado. Por exemplo, no caso da Realidade Virtual disponível nos oito Centros de Interpretação da Rota e de outras tantas experiências de Realidade Aumentada em vários sítios patrimoniais, a tecnologia é uma ponte entre o detalhe histórico e a possibilidade de “ver” o passado a acontecer diante de si e isso cria uma ligação com o público.
A Rota integra a rede nacional dos Itinerários Napoleónicos Portugal, as Rotas Napoleónicas por Espanha e Portugal e o Itinerário Cultural Europeu Destination Napoleon. Que papel imagina para a Rota no contexto europeu?
A Rota tem hoje condições para reforçar a sua posição enquanto referência na gestão integrada da temática napoleónica, que nacional quer internacionalmente, desde que continue o seu caminho de cooperação entre municípios, entidades públicas e privadas, equipas técnicas e parceiros internacionais. Nos últimos anos, a Rota cresceu em relevância no contexto das paisagens culturais europeias e da memória napoleónica e acredito que temos condições para afirmar o território como referência em conservação, interpretação e inovação. O nosso trabalho tem sido dado como bom exemplo para outras organizações e reconhecido por vários organismos, entre os quais a Federação Europeia das Cidades Napoleónicas, da qual renovamos, este ano, o mandato na vice-presidência.
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Houve um momento que marcou a maturidade institucional?
Sim, absolutamente. O momento em que os municípios passaram a discutir o território numa lógica estratégica e de coesão e não apenas operacional. Quando deixámos de olhar para as fronteiras municipais e começámos a trabalhar o património cultural e militar das Invasões Francesas como um sistema abrangente, pode dizer-se que a Rota atingiu um novo patamar.
Como foi gerir um projeto com públicos tão diversos?
Foi um exercício de mediação constante. Falamos com académicos, com autarcas, com escolas, com entidades supramunicipais, com o setor privado e com as comunidades que vivem diariamente sobre estas memórias. Procuramos adaptar a linguagem sem perder rigor e garantir que todos se sentiam parte do processo. Cada grupo, tendencialmente vê as Linhas de Torres e as Invasões Francesas de forma diferente, e cada um merece ser escutado. Às vezes senti-me mediador, outras vezes aprendiz. Mas sempre me senti parte de algo maior do que a função que exerci: um território vivo que nos impele à sua salvaguarda e valorização.
Que conselho deixaria a quem o sucede — e que memória leva consigo?
O conselho é simples e conhecido de todos os que partilharam comigo este caminho de dez anos de existência da Associação e de outros tantos da Plataforma Intermunicipal para as Linhas de Torres: preservar o espírito de cooperação, escutar as pessoas e o território para manter uma visão estratégica atualizada e coerente e confiar na equipa técnica. É ela que garante continuidade, competência e capacidade de execução. Quanto à memória, levo a satisfação de ver um património antes desconhecido tornar-se num espaço vivo, usufruído pelas comunidades e visitantes, assim como, o reconhecimento nacional e internacional. Particularmente, gosto do ir até ao Forte do Alqueidão e dali olhar a paisagem que continua a testemunhar a razão da existência destas Linhas. Ali, no coração da Primeira Linha de Defesa de Lisboa, percebo claramente que a História continua e que é um privilégio cuidar dela.