Fundada a 8 de Junho de 2024, a Padaria Vila Fresca é um projeto familiar que cruza duas formações pouco comuns no universo da panificação artesanal: Cláudia Guerreiro, engenheira alimentar, e Paulo Estorninho, formado em Ciências Farmacêuticas. A combinação não é apenas um detalhe curioso, mas uma chave de leitura. Ajuda a perceber a atenção ao processo, à saúde e à origem dos ingredientes que define esta padaria de Vila Franca de Xira.
O ponto de partida é claro: recuperar práticas tradicionais da panificação artesanal, trabalhando com farinhas de moleiro, fermentações naturais e prolongadas e uma relação próxima com pequenos produtores da região. Sustentabilidade e valorização do território não surgem como clichês de marketing, mas como critérios de trabalho quotidiano.
Foi com este espírito que nasceu o desafio de criar o Biscoito das Linhas, desenvolvido em parceria com a Rota Histórica das Linhas de Torres. A inspiração veio dos biscoitos secos do início do século XIX, associados às Invasões Francesas — alimentos concebidos para resistir ao tempo, às marchas e à escassez. Um ponto de partida austero, quase ingrato. Cláudia e Paulo conseguiram, porém, o que parecia improvável: transformar um biscoito pensado para a dureza da Guerra Peninsular em algo que, sem atraiçoar as origens, apetece comer… e repetir.
A receita foi reinterpretada com inteligência, substituindo gorduras animais por azeite e apostando no trigo barbela, uma variedade autóctone, mais digestiva e de baixo teor de glúten. O resultado é um biscoito de textura firme, mas surpreendentemente agradável, com um sabor franco e aquele equilíbrio raro que nos faz inevitavelmente estender a mão para mais um.
Cada unidade é marcada com três linhas, evocando simbolicamente as três linhas de defesa das Linhas de Torres. Um gesto simples que transforma o biscoito num pequeno objeto de memória, sem folclore nem teatralidade.
Fica a suspeita — impossível de provar, mas fácil de imaginar — de que, se os biscoitos de há duzentos anos tivessem este sabor, dificilmente sobreviveriam um dia inteiro na mochila dos soldados. Hoje, felizmente, não precisam de sobreviver a marchas forçadas: basta que resistam uns poucos minutos sobre a mesa.
Mais do que um produto alimentar, o Biscoito das Linhas é uma ponte entre património, gastronomia e território. Um tributo comestível ao engenho e à resiliência das comunidades que ergueram as fortificações, mostrando que a memória histórica também se preserva — e se saboreia.
Ideal para acompanhar um café ou um chá, para partilhar ou oferecer, o Biscoito das Linhas é uma viagem ao passado feita com rigor, inteligência e prazer.