DEZEMBRO 2025 A JUNHO 2026

A Cultura no seu palácio

O Palácio do Morgado conta uma história de amor entre o património e a cultura.

Em Arruda dos Vinhos, como que provando que o território das Linhas de Torres se visita também por dentro — por dentro das vilas, por dentro dos edifícios, por dentro das muitas camadas de tempo de que é feito — ergue-se o Palácio do Morgado, hoje Centro Cultural do Morgado e casa da Biblioteca Municipal Irene Lisboa: um lugar onde a leitura se faz entre paredes antigas, azulejos raros e um certo silêncio que lhe ficou de casa nobre.

O palacete foi mandado erguer no final do século XVIII por António Teodoro de Gambôa e Liz, cavaleiro da Casa Real e capitão-mor de Arruda. A autoria da traça é atribuída a Mateus Vicente de Oliveira, um dos nomes fortes da arquitetura setecentista portuguesa — ligado a obras como Mafra, Queluz, Santo António de Lisboa ou a Basílica da Estrela. No Palácio do Morgado, esse período surge numa combinação elegante entre rocaille/rococó e neoclassicismo: a graça decorativa convive com linhas mais contidas e simétricas, como se o edifício fosse, ao mesmo tempo, festa e disciplina.

A própria designação “morgado” remete para um antigo regime de herança — bens vinculados e transmitidos por ordem de sucessão, quase sempre ao primogénito — e ajuda a perceber o peso social e simbólico que estas edificações tinham no território. A frontaria exibe o brasão das famílias Gambôa e Liz. No interior, sobrevivem vestígios de um programa decorativo rico: azulejaria rococó e pombalina, painéis policromos com grinaldas de gosto “D. Maria I”, marmoreados fingidos, estuques e pinturas murais.

Um dos núcleos mais marcantes é a capela, datada de 1781, com silhares de azulejo azul e branco e emblemas iconográficos associados ao universo mariano e dominicano. Espalhadas por salas e escadarias, surgem as marcas desse “museu doméstico” do século XVIII: não um museu no sentido formal, mas uma casa que alberga arte aplicada, gosto, memória e, nos dias de hoje, serviço público.

A história recente do edifício também conta: o Palácio entrou, faseadamente, no património municipal e foi adquirido em 2001, abrindo caminho à sua transformação em polo cultural. O resultado é um belo exemplo de reutilização com sentido: um palácio que não ficou parado no tempo, antes ganhou nova vida — com livros, atividades e as suas portas abertas à comunidade.

Afinal, património há que se visita a partir de uma paisagem e outro há que começa, muito simplesmente, quando se entra numa biblioteca. 


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